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Crítica | Ninfomaníaca – Volume 2

Ninfomaníaca – Volume 2 finaliza as desventuras sexuais de Joe (Charlotte Gainsbourg), uma mulher viciada em sexo que é encontrada por Seligman nas ruas depois de aparentemente ter sido espancada. O filme segue com os relatos de Joe para Seligman (Stellan Skarsgård), e apesar de apresentar muitos dos problemas do primeiro capítulo (afinal, os dois foram feitos juntos), pelo menos conclui a narrativa em oito episódios do cineasta Lars von Trier (Melancolia) de uma maneira mais satisfatória do que ela começou.

A trama tem início exatamente onde o primeiro parou, com a jovem Joe (Stacy Martin) desesperada por não conseguir atingir um orgasmo. O que se segue é um amontoado de tentativas (muitas delas frustradas) de conseguir de volta a sua sexualidade, ainda que isso signifique negligenciar tudo e todos à sua volta. E é nessa busca, e no fato de mostrar a personagem adulta (interpretada por Gainsbourg) tentando se redescobrir, que reside a maior qualidade do longa.

Evocando visões divinas durante um orgasmo espontâneo ocorrido na infância da protagonista, Lars von Trier procura fazer relações constantes entre sexo e religião, não para propor uma discussão profunda sobre os dois assuntos, mas aparentemente (ou principalmente) por causa da sua “necessidade” de polemizar todo assunto que aborda. E se no meu primeiro texto eu falei que Seligman assume o papel de um padre ouvindo uma confissão, aqui o diretor reforça essa ideia, apresentando a sua visão misantrópica de como um padre “deve” agir, ao mesmo tempo em que afirma que eventualmente todos se entregam às suas perversões.

Novamente apontando os seus próprios exageros como forma de disfarçar os seus equívocos, o roteiro faz questão de trazer momentos completamente desnecessários, como aquele em que Seligman interrompe a história de Joe para falar sobre a origem do nó prussik e a própria Joe afirma que “essa foi uma das suas digressões mais fracas até agora”. Ainda que o cineasta pretenda fazer uma piadinha com a situação (e o seu humor característico funciona muito melhor em outro momento, envolvendo várias colheres), isso acaba exacerbando a redundância de tais situações, afinal qual é a necessidade de se interromper a narrativa para inserir de uma informação que o roteirista, o público e os personagens consideram inútil?

O mesmo pode ser dito da cena em que Joe coloca fogo num carro, cena essa que é repetida três vezes durante todo o filme e em nenhuma dessas vezes tem uma função específica, sendo utilizada apenas pelo seu impacto visual. A queima do carro representa o novo emprego de Joe como cobradora de dívidas, mas ela mesma explica que discorda desse tipo de abordagem violenta e infrutífera, e prefere usar seus conhecimentos sexuais para conseguir que os devedores paguem as suas dívidas. Então pra que mostrar o carro queimando? Pra que reforçar três vezes uma ideia que é contrária ao pensamento da protagonista?

Mesmo assim, é no mínimo interessante a discussão que o longa apresenta ao tocar no tema da pedofilia, e, ao contrário da temática da religião (e do padre), aqui o diretor prefere focar a sua atenção nos 95% de pessoas que sofrem com esse mal sem nunca manifestá-lo ou sem saber que ele existe, em vez de mostrar aqueles outros 5% que de fato cometem atos criminosos. E por pior que seja o conceito da pedofilia (e nesse sentido, concordo com a opinião de Seligman sobre o assunto), é possível entender os motivos que levam Joe a se identificar com o pedófilo, principalmente quando ela afirma que “nascer com uma sexualidade proibida deve ser agonizante”.

É uma pena que depois disso o Lars von Trier faça questão de trazer a sua protagonista falando absurdos como “para o ser humano, matar é a coisa mais natural do mundo”, o que apenas reflete a visão de mundo pessimista do realizador e a sua constante tentativa de polemizar, fazendo com que até a discussão sobre a pedofilia perca o sentido. E quando Joe condena a sociedade pela censura de não poder se expressar da maneira que ela gostaria, isso soa claramente como uma referência ao que aconteceu com o cineasta no Festival de Cannes em 2011 e também reflete a sua necessidade de colocar todo o filme em risco apenas para chamar a atenção novamente para si mesmo.

(Nymphomaniac - Volume II | Drama | Dinamarca/Alemanha/França/UK | 2014 | 123 min.)
Direção: Lars von Trier
Roteiro: Lars von Trier
Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stacy Martin, Stellan Skarsgård, Shia LaBeouf, Jamie Bell, Mia Goth, Willem Dafoe, Michael Pass, Jean-Marc Barr, Ananya Berg.

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