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Crítica | Riocorrente

Não tenho nenhum problema com filmes que decidem fazer diversas perguntas sem sentirem a necessidade de respondê-las – afinal, David Lynch construiu uma carreira brilhante dessa maneira. Meu problema é com trabalhos que se utilizam desta prerrogativa, mas investem em perguntas tão desinteressantes que o público não só não fica curioso em saber as respostas, como também não se importa com elas. E esse, infelizmente, é o caso de Riocorrente.

Escrito por Paulo Sacramento (que também dirige o longa), o roteiro acompanha quatro pessoas que vivem em São Paulo: Carlos (Lee Taylor), um ladrão de carros com comportamento explosivo, Marcelo (Roberto Audio), um jornalista cultural em crise existencial, Renata (Simone Iliescu), uma bela jovem que se envolve com os dois, e Exu (Vinicius dos Anjos), um menino de rua que gosta de riscar a lataria de carros e tem uma espécie de relação de pai e filho com Carlos.

Por algum motivo que não fica claro, Sacramento opta por desestruturar todo o seu filme, investindo simbolismos desnecessários (o leão, os ratos, o dente caído, a combustão espontânea, etc.) e opções narrativas que simplesmente não levam a lugar nenhum – a necessidade urgente de Carlos em conseguir um carro em certo momento não faz o menor sentido, uma vez que ele poderia muito bem ter utilizado a sua moto (aliás, talvez isso fosse até  mais fácil).

Da mesma maneira, o texto ainda insere momentos “dramáticos” bruscamente, o que, obviamente, não funciona. Um exemplo disso é a cena em que Marcelo e Renata têm uma grande DR, que culmina no término do “relacionamento” deles. Coloquei as aspas anteriormente porque essa ideia de relacionamento até então sequer tinha sido mencionada, e não é nada condizente com as atitudes da garota, que mais parecia alguém que usa os homens para o seu próprio prazer, ou seja, nada a ver com a figura frágil mostrada ali.

Aliás, se Renata demonstra alguma fragilidade durante o filme, isso se dá quando ela está com Carlos, não com Marcelo. E o próprio envolvimento dela com os dois homens não convence, parecendo mais uma tentativa de autopunição da garota – ainda que isso seja uma interpretação minha, uma vez que o texto prefira manter a sua personagem envolta numa áurea de mistério. E isso se torna uma constante em todos os personagens, o que consequentemente reduz os seus desenvolvimentos: Carlos é só um garoto mimado; Marcelo é só um hipster (que, por algum motivo, usa uma máquina de escrever, e depois passa tudo para o computador); Renata é só indecisa; e Exu é só um moleque revoltado. E só.

E por mais que, como disse antes, eu não tenha nenhum problema com esse tipo de mistério, pessoalmente sinto a necessidade de pelo menos alguma informação (qualquer uma!) para que possa formular uma opinião devidamente embasada (e não é isso o que acontece aqui). Mas sim, existe a possibilidade de que tudo isso seja a vontade do realizador e que essa confusão causada pelo longa seja mesmo a sua abordagem do tema. É fato que, como cineasta, Paulo Sacramento tem o direito de fazer o que quiser com o seu trabalho. Essa é a vantagem da arte. Se a sua intenção é a de criar um filme sem sentido, ele tem todo o direito de fazê-lo (e assim o fez). Mas, mesmo entendendo isso, eu não tenho a obrigação de gostar.

(idem | Drama | Brasil | 2014 | 79 min.)
Direção: Paulo Sacramento
Roteiro: Paulo Sacramento
Elenco: Lee Taylor, Roberto Audio, Simone Iliescu, Vinicius dos Anjos.


Riocorrente Trailer from Fernando Lui - Colorist on Vimeo.

2 comentários:

  1. Amigo, adiciona na tua lista, Mato sem Cachorro. Um forte concorrente a lixo.

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  2. São poucos os filmes nacionais de se tirar o chapéu. Nosso cinema tem se limitado a filmes de comédia com cara da Globo e sem graça, biografias mela-cueca, filmes favela com violência, sexo e música ruim e dramas sem pé nem cabeça como esse citado acima. Enquanto os produtores e estúdios não reverem suas ideias nosso cinema só tem decair cada vez mais.

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