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Crítica | Guardiões da Galáxia

Normalmente, quando se diz que a história de certo filme não importa, esse argumento é usado para justificar um trabalho ruim (vide quase toda a carreira de Michael Bay e os comentários dos seus fieis seguidores). Mas, falando exclusivamente de longas comerciais, alguns deles de fato criam uma narrativa envolvente sem que a trama tenha uma função determinante, em que a situação em si e a interação entre os atores/personagens é o que realmente importa – e todo o roteiro é construído em cima disso. Foi isso que aconteceu com o bom Os Mercenários 2 e é o que acontece também neste ótimo Guardiões da Galáxia, que mesmo estando dentro do sistema de produção da Marvel Studios (mais sobre isso depois), ainda consegue se destacar, tornando-se um dos seus melhores títulos (senão o melhor).

Existe uma diferença gritante entre o que é visto neste novo trabalho do cineasta James Gunn (Super) e na carreira de Michael Bay (apenas para manter o exemplo). Enquanto o primeiro brinca com a própria estrutura do seu fiapo de história, concebendo uma narrativa que nunca se leva a sério e explicita a sua própria previsibilidade, o segundo escolhe ignorar a história que está contando, sacrificando-a para que não atrapalhe o seu próprio (e autopromocional) espetáculo visual. Mas sim, há uma trama em Guardiões da Galáxia, além de uma motivação para os personagens e um macguffin que movimenta todo o filme, mas isso se mostra quase irrelevante no seu contexto geral. Escrito pelo próprio Gunn ao lado de Nicole Perlman, o roteiro acompanha a formação da equipe do título, que se junta – meio a contragosto, vale destacar – para enfrentar a ameaça do vilão Ronan. Basicamente, é isso.

Visando nunca tirar a atenção dos anti-heróis, o roteiro explica muita coisa (a família morta de Drax, a relação de Gamora com Thanos, a criação de Rocket, e o perigo representado por Ronan) por meio de diálogos – o que não deixa de ser uma solução preguiçosa, mas que, como eu disse antes, funciona. O único personagem que ganha um pouco mais de desenvolvimento é Peter Quill (Cris Pratt), que ainda tem uma subtrama envolvendo a sua mãe e a sua fixação por um walkman, o que acaba servindo como um atrativo a mais. Assim como Quentin Tarantino criou o programa de rádio K–Billy Super Sound of 70’s para justificar a sua trilha sonora em Cães de Aluguel, Gunn faz o mesmo aqui com o walkman de Quill, utilizando diegéticamente diversas músicas das décadas de 1970 e 1980.

Aliás, é interessante perceber como as músicas exercem uma forte importância narrativa, ilustrando a interação entre os personagens (Quill seduz Gamora com uma música), definindo a personalidade do protagonista (ele aparece dançando em sua primeira cena no espaço), justificando as sequências de ação (o wallkman, e as músicas que ele contém, são usados como motivação para uma missão quase suicida) e explicitando o retorno de alguém (que surge dançando ao som de Jackson 5). E quando Quill precisa distrair alguém, adivinhem o que ele faz?

E se as músicas são uma atração à parte, o resto do longa não fica muito atrás. Com um visual colorido, um vilão imponente, um clímax muito bem conduzido e bastante humor (inclusive com uma piada sobre sêmen que inexplicavelmente passou por todos os censores), Guardiões da Galáxia é entretenimento puro, no melhor sentido da palavra.

E quando eu digo que este é um dos melhores filmes da Marvel, acredito que a afirmação correta seria a de que este é o melhor filme apesar da Marvel. Isso porque, dentro da linha de produção da empresa adquirida pela Disney, torna-se quase impossível apresentar uma história fechada, com resultados definitivos. E aqui isso não é diferente. Tem sempre algumas citações que soam deslocadas individualmente (e que sim, fazem parte de um plano geral, mas nem por isso deixam de estar deslocadas agora), personagens que embarcam numa nave e fogem ao final do longa (para aparecerem em outros projetos) ou vilões maiores dos que os mostrados no filme. Com isso, os realizadores parecem ter medo (ou serem proibidos, o que é mais provável) de tomarem decisões mais drásticas. E por mais que tal decisão amplie a possibilidade de se estabelecer um universo cinematográfico para a editora de quadrinhos, isso também engessa a criação de obras individuais.

Sendo assim, apesar da Marvel, Guardiões da Galáxia é o melhor filme do estúdio (sim, já mudei de ideia). Ao contrário de Os Vingadores, em que sua (pouca) tentativa de se levar a sério apenas exacerbava os seus equívocos narrativos, James Gunn opta por realizar um trabalho leve, que faz jus ao universo dos quadrinhos ao mesmo tempo em que traz muito do humor característico do seu diretor (em especial, o visto em Seres Rastejantes). E o Rocket Racoon, por si só, já vale o ingresso.

(Guardians of the Galaxy | Aventura/Sci-fi | EUA | 2014 | 121 min.)
Direção: James Gunn
Roteiro: James Gunn e Nicole Perlman
Elenco: Chris Pratt, Zoë Saldana, Bradley Cooper, Vin Diesel, Lee Pace, Dave Bautista.

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