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Crítica | Terceira Pessoa



Atenção: o texto abaixo pode conter spoilers. Sendo assim, é melhor que você só leia se já tiver assistido ao filme. Isso, porém, é relativo, porque as informações descritas aqui que constituiriam spoilers por uns, podem não ter o mesmo significado para outros. Na minha opinião, não digo nada que não fique óbvio depois de 15 minutos de filme, mas, mesmo assim, o aviso está dado.

Em certo momento de Terceira Pessoa, novo filme de múltiplos personagens do cineasta Paul Haggis (Crash – No Limite), o escritor interpretado por Liam Neeson (Sem Escalas) afirma que seu novo trabalho é sobre um escritor que só consegue viver através das suas criações, tornando-se ele próprio uma obra de ficção. Pouco depois, esse mesmo escritor se encontra com o seu editor, que lhe informa não irá publicar o livro, pois ele trata de “personagens aleatórios fazendo desculpas variadas para sua própria vida”. E por mais que o público já tenha identificado o significado disso há algum tempo (o título dá uma boa pista), nesse instante o longa toma um rumo mais interessante e entrega uma narrativa que se apoia na metalinguagem para justificar – mas não solucionar – os seus equívocos.

As tais histórias aleatórias, pelas quais o protagonista vive, mostram os casos aparentemente desconexos entre um homem (Adrien Brody) que viaja para a Itália para roubar os designs de estilistas famosos e conhece uma mulher por lá; uma mãe (Mila Kunis) que quer recuperar a guarda do seu filho ao mesmo tempo em que precisa colocar a sua vida em ordem; um pintor (James Franco) que tenta se conectar com o filho; uma advogada (Maria Bello) que busca deixar suas tragédias pessoais para trás; além do já mencionado escritor, que tem um relacionamento um tanto diferente (e problemático) com sua amante mais jovem (Olivia Wilde).



Pela descrição acima, é possível perceber que são tramas bastante novelescas e melodramáticas. Mas isso funciona dentro da lógica do filme. Afinal, o que estamos vendo é o primeiro rascunho de uma obra ainda a ser escrita. E na prática da escrita é normal que se defina os personagens recém-criados pelos seus dramas pessoais, informações essas que vêm logo após a idade e a aparência física. Da mesma maneira, não é incomum que alguns ganhem mais importância durante a escrita, enquanto outros são esquecidos na narrativa (outro “problema” estrutural visto aqui). Por fim, também é comum que o autor, no seu papel de Deus daquele universo, opte por conceber as criações à sua imagem e semelhança (física e/ou psicológica), como forma de expurgar os seus próprios demônios. E Terceira Pessoa faz tudo isso de maneira louvável.

Tecnicamente, o longa merece elogios. Desde a direção de fotografia de Gianfilippo Corticelli (Prova de Redenção), que se utiliza de paletas de cores diferentes, muitas vezes em um mesmo ambiente, como forma de separar as tramas; até a montagem de Jo Francis (72 Horas), que trabalha com o raccord de movimento entre cenas e lugares distintos, dando assim uma noção de continuidade àquelas histórias. O mesmo não pode ser dito de Haggis, que exagera a mãe nos momentos mais dramáticas (uma sequência mostrando uma pessoa ser arrastada para o elevador é risível), ao mesmo tempo em que é prejudicado exatamente pela superficialidade do que se propõe a fazer. E esse é o verdadeiro problema do filme.



Por mais a proposta de filmar uma obra sendo escrita soe como uma ideia interessante, não deixa de ser frustrante para o espectador ter que acompanhar 130 minutos de uma narrativa rasa, formada por rascunhos de personagens que podem ser apagados quando uma história melhor – ou menos pior – prevalecer. Igualmente incômoda é a opacidade daquelas pessoas, com destaque para a ignorância do picareta vivido por Brody ou a incoerência da (insuportável) amante interpretada por Wilde. E ainda que Neeson se esforce para entregar consistência ao seu protagonista, o seu tempo limitado de tela não é suficiente para salvar o restante do longa.

Ao final, Terceira Pessoa se apresenta como um projeto muito mais ambicioso do que Crash – No Limite, filme que deu fama (e Oscar) ao seu realizador. Porém, mostrando-se uma vítima da sua própria ambição, seu resultado é bastante inferior. Mesmo assim, a ideia era muito boa.



("Third Person" | Drama | EUA/França/Bélgica/Reino Unido/Alemanha | 2013 | 137 min.)
Direção: Paul Haggis
Roteiro: Paul Haggis
Elenco: Liam Neeson, Mila Kunis, Adrien Brody, Olivia Wilde, Kim Basinger, James Franco, Loan Chabanol.

TRAILER:

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