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Crítica | Love


Nos últimos anos, dois filmes de muita internacional trouxeram a palavra “amor” no seu título. E não é nenhuma surpresa que ambos os casos fugiram da temática clássica geralmente associada a esse tema (casal se conhece e se apaixona) e entregaram visões sombrias desse conceito, ainda que enraizadas nas filmografias dos seus respectivos diretores. Enquanto o premiado Amour associava-o à ideia de morte, tão presente na carreira do cineasta austríaco Michael Haneke, o atual Love 3D (tema desse texto) trata desse assunto associando-o com o sexo, algo também comum na obra do realizador argentino Gaspar Noé (Irreversível).

Escrito pelo próprio Noé, o roteiro acompanha Murphy (Karl Glusman), um jovem americano estudante de cinema que mora na França e que recentemente teve um filho com a bela Omi (Klara Kristin). Ao receber uma ligação de sua ex-sogra, que lhe relata a preocupação por conta do sumiço da filha Electra (Aomi Muyock), Murphy passa a rememorar a sua relação com Electra, relação essa que se apresenta como amorosa, imprevisível, sensual, libidinosa e aparentemente perfeita, o que contrasta com a sua atual situação de extrema infelicidade. É como se, para o protagonista, o casamento fosse uma prisão da qual ele só consegue escapar por meio de memórias de um relacionamento utópico.



Aliás, é interessante perceber como a própria ideia do amor do título muda bastante na visão do protagonista (ora associada à paixão sexual, ora ao amor paternal, etc.). E essa multiplicidade (ou ausência) de sentidos exprime a sua impossibilidade se envolver de verdade com outra pessoa. Sendo assim, esse amor que ele busca em suas lembranças é platônico, inalcançável e inexistente. Esse amor (ou “Love”) de Murphy só ganha definição no seu pensamento, ou seja, na sua intimidade.

Noé usa a narração em off exatamente para explicitar essa intimidade, explorando os pensamentos mais obscuros do seu personagem, e colocando para fora tudo aquilo que ele é incapaz de dizer em voz alta. De certa maneira, é isso que o diretor faz também com o uso explícito de sexo: explorar a intimidade das pessoas ali retratadas. Porém, se a parte narrativa de Love merece elogios (com uma construção intrincada, mas nunca complexa), no quesito tecnológico ele pode não agradar tanto (ainda que, talvez, essa seja a intenção).



Em certo aspecto, o 3D do longa é muito mal usado, uma vez que se utiliza de pouca profundidade de campo e é só em alguns momentos que algo é “jogado” na direção do público – recurso mais banal dessa tecnologia. Entretanto, é possível enxergar essa escolha como provocação do cineasta, uma desconstrução do conceito pré-estabelecido de como um filme 3D deve ser. Afinal, só isso (ou um profundo desconhecimento) para explicar como alguém opta por essa tecnologia ao mesmo tempo em que coloca seus personagens sempre contra a parede (ou o colchão), criando assim uma imagem obrigatoriamente bidimensional.

E se consigo entender, e até apreciar, essa (suposta) tentativa de desconstrução da linguagem proposta pelo diretor, confesso que achei a sua presunção um tanto incômoda. Além de pequenos toques de narcisismo (como os nomes do bebê e do ex-namorado de Electra), vê-se no protagonista uma representação metalinguística de Noé. Murphy deseja “fazer filmes sobre sangue, esperma e lágrimas”, algo que ele define como “a essência da vida”. Porém essa sua forma de pensamento revela uma ideia de cinema baseada apenas na polêmica, mas vazia de sentido. É como se o uso do sexo (e de sangue) não tivesse outro propósito que não o de chocar o espectador. E se o personagem foi feito à semelhança de seu criador, seria essa a visão que Gaspar Noé tem de cinema?

Gosto de pensar que não.


FICHA TÉCNICA
Título original: Love
Gênero: Drama, Romance
País: França/Bélgica
Ano: 2015
Duração: 135 min.
Direção: Gaspar Noé
Roteiro: Gaspar Noé
Elenco: Aomi Muyock, Karl Glusman, Klara Kristin, Juan Saavedra, Gaspar Noé, Vincent Maraval.

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