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Revisitando Sexta-Feira 13



Tive a oportunidade de rever o primeiro Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, 1980) na noite de Halloween, graças à atual temporada de Clássicos Cinemark. Sempre defendo a experiência de se assistir a um filme no cinema, e no caso de filmes que vimos há muito tempo, isso funciona ainda melhor. E foi o que aconteceu. Lembro-me de tê-lo assistido apenas uma vez, na época do VHS (sim, eu sou velho), durante uma maratona da franquia. Sendo assim, tinha esquecido quase tudo em relação ao ele, com exceção do final; o que tornou a experiência algo quase inédito.

A trama era fácil de lembrar, uma vez que se apresenta – hoje em dia – como um amontoado de clichês: grupo de jovens passa a noite numa acampamento vazio, à beira de um lago. O acampamento carrega a fama de ser o local de diversas tragédias e não demora muito para que os jovens percebam que as lendas cercando aquele lugar são verdadeiras. Porém, muitos dos aspectos técnicos e narrativos de Sexta-Feira 13, que tinham passado despercebidos numa primeira visita, se destacaram na revisão. E são estes os que eu listo a seguir.



O primeiro detalhe que me chamou atenção foi logo no início, durante os créditos iniciais, quando o cinema foi tomado pela trilha sonora estridente de Harry Manfredini. A música entra rasgando os tímpanos do espectador, numa metáfora da forma como as lâminas do assassino cortam as carnes das suas vítimas. Aliás, é interessante notar que em muitos casos a violência do filme é mascarada, e cabe à Manfredini preencher as lacunas deixadas pela imagem. Nesse sentido, sua trilha surge como uma mistura – bem descarada em certos momentos – das músicas de Tubarão e Psicose.

Outro aspecto que observei foi o conservadorismo, especialmente no que tange a abordagem a respeito de sexo. Toda a trama gira em torno da punição pelo sexo. Uma tragédia aconteceu, há muitos anos, porque dois jovens estavam transando em vez de cuidarem das crianças do Cristal Lake, e desde então jovens morrem após fazerem sexo. O casal do início, o casal que dá uma escapada durante a chuva, o jovem que só pensa em mulheres, todos eles morrem numa espécie de punição pelos seus atos pecaminosos.



A princípio eu pensei que isso era um reflexo da crise da AIDS, tema bastante presente no gênero slasher, mas a doença só foi oficialmente descoberta em 1981, um ano após a produção do longa. Então, eu relaciono esse conservadorismo a uma ressaca pós-nova Hollywood, com a indústria se recuperando depois da onda de liberdade criativa que foi a década de 1970 – quando temáticas como sexo e drogas eram mostradas “livremente” no cinema americano. E o filme explicita isso ao colocar como única sobrevivente do massacre justamente aquela que (spoiler) não tira a roupa durante o jogo de strip-tease.

Por fim, outros aspectos que me chamaram atenção – positiva e negativamente – foram foi o roteiro de Victor Miller e a direção de Sean S. Cunningham. A estrutura narrativa é irregular. Exemplo disso é a personagem que é apresentada logo no início da projeção, para quem toda a trama é explicada. Ela surge como a protagonista, só pra ser morta em seguida. Logo depois, conhecemos outras três pessoas, e eles também não são os protagonistas.



Essa estrutura não-convencional não chega a ser um problema, uma vez que mexe com nossas expectativas de maneira positiva. Além do mais, é interessante perceber como a verdadeira heroína da história vai ganhando mais espaço aos poucos, à medida que os outros vão morrendo. Da mesma maneira, é uma escolha arriscada introduzir uma nova personagem já no terceiro ato, mas o roteiro consegue contornar isso muito bem.

Cunningham, por sua vez, opta por um ritmo mais lento, algo que pode ser visto com estranheza pelas plateias atuais não estão muito acostumadas, mas que funciona dentro da sua proposta. Boa parte do filme se resume a acompanhar a rotina dos jovens no acampamento, enquanto sua câmera subjetiva – substituindo os olhos do assassino – se esgueira pela floresta. Não posso deixar de mencionar também uma cena que me encantou profundamente pela sua simplicidade e eficácia. Nela, os personagens entram numa cabana para usar o telefone e o diretor opta por manter a câmera do lado de fora. Por muito tempo fiquei me perguntando qual o motivo daquela escolha, até que, num travelling lateral simples e eficiente, ele mostra o fio do telefone cortado.



Ainda assim, não posso dizer que gostei da maneira como a motivação do assassino é apresentada através de uma bizarra imitação da voz de um menino morto e nem da forma como, ao final, quando a mocinha finalmente resolve revidar, o diretor opte por filmar tudo em câmera lenta, explicitando toda a artificialidade da maquiagem empregada naquele momento – algo que uma filmagem em 24 frames por segundo conseguiria disfarçar.

Tanto as qualidades quanto os defeitos do longa são mais visíveis na sala do cinema – o clímax, mencionado acima, provocou risos na sessão em que eu estava. Mesmo assim, volto a defender que filmes foram feitos para serem vistos no cinema, principalmente aqueles que carregam um valor sentimental para o espectador. Por mais que eu não goste tanto de Sexta-Feira 13, vê-lo no cinema, na última sessão da noite de Halloween, já valeu o ingresso.



Leia mais sobre terror aqui.

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