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O almanaque cinematográfico de George Lucas



Desde que foi anunciado o sétimo episódio da fantasia "Star Wars", dificilmente algo alcançou tamanha repercussão e comoção entre os fãs. Apoiada numa campanha publicitária muito bem cuidada e massivamente veiculada, o filme que se aproxima carrega um peso enorme de expectativas. Agora a série vem desvinculada, ainda que parcialmente, de seu criador. Podemos abordar o que isso significa.

Há algumas décadas, antes do aporte infinito de informações da internet, existiam publicações, geralmente anuais, que reuniam os mais variados assuntos, desde mapas e bandeiras dos países, os acontecimentos importantes do ano, até curiosidades sobre cultura em geral. Os Almanaques eram esperados avidamente pelos leitores, geralmente jovens ainda em idade escolar, pois através deles se atualizavam, incrementavam seus conhecimentos e se sentiam mais conectados com o mundo. Isso parece um tanto limitado e ingênuo, pois as facilidades de se conhecer algo hoje são imensas. Também há um tempo, nesta mesma galáxia, as nossas referências culturais e gostos pessoais eram formadas pela contingência. Ou seja, nem tudo estava ao alcance das mãos, e o conhecimento era baseado mais na oportunidade que na escolha.



Poderíamos nunca ver um filme se ele não fosse lançado no Brasil, sendo proibido por um regime político (como “Zabriskie Point” (1970), de Michelangelo Antonioni, pela ditadura militar brasileira) e até pelo Papa (como ocorreu por aqui com “Je vous salue, Marie” (1984), de Jean Luc-Godard. As crianças e jovens assistiam a sessões diurnas e baratas em cinemas de rua. Eram as populares Matinês. Nos outros dias as sessões, geralmente em uma única sala, eram noturnas e com filmes mais voltados ao público adulto, e alguns “exclusivamente” para este público. Numa época em que poucos tinham a aparelhagem de vídeo caseiro (que tinha o pomposo nome estrangeiro de Vídeo Home System, ou VHS), não importava só o filme, mas também a ocasião. Aquela era a dieta cinematográfica da semana, além de um ou outro filme que passava na televisão.

Em Modesto, Califórnia, um jovem magricela na década de 1950 mantinha uma rotina parecida, acompanhando os filmes seriais de Buck Rogers e Flash Gordon, lendo livros de ficção científica, assistindo televisão, além da paixão por carros. Depois entraria para a faculdade de cinema, e tentaria levar tudo isso para seus filmes. Deste modo, inventou a fórmula que redefiniu as matinês nos anos 70, resgatando muito da diversão que eram essas sessões, em criações como Indiana Jones e Star Wars.



A mistura que o pupilo de Francis Ford Coppola mostrou aos colegas em meados dos anos 1970 era realmente extravagante: uma ópera espacial ao estilo de Flash Gordon e Buck Rogers, misturada aos filmes de samurai de Akira Kurosawa, influências dos gêneros cinematográficos como o Western, filmes de guerra, Capa e Espada, além dos elementos transcendentais de Carlos Castaneda, a imaginação vigorosa e substantiva de J. R. R. Tolkien e os estudos sobre mitologia de Joseph Campbell. O visual era bastante geométrico e de aparência surrada, as cenas enfatizavam mais a ação que o desenvolvimento dramático, os personagens eram claramente divididos entre bons e maus, e cada um dos principais possuía uma música tema, ao estilo dos leitmotivs das óperas wagnerianas e dos filmes de Sergio Leone.

Tudo contrariava o que se estava fazendo no cinema americano dos anos 1970, com filmes realistas e personagens complexos, como o motorista de taxi alienado de Martin Scorsese, as tramas neo-hitchcockianas de Brian de Palma, os dramas familiares ambientados na máfia italiana de Francis Ford Coppola ou o policial de moral dúbia de um thriller de William Friedkin. Os únicos cineastas da época que investiam em filmes amenos e escapistas eram Steven Spielberg, que fez imenso sucesso com “Tubarão” (1975), e Peter Bogdanovich, que apostava na nostalgia e na estética do grande cinema americano dos anos 50, como em “A Última Sessão de Cinema” (1971) e “Lua de Papel” (1973). E mesmo George Lucas havia obtido relativo êxito no movimentado e jovial “American Graffiti” (1973), posterior a sua estreia com o austero e visualmente (e também sonoramente) interessante “THX 1138” (1971).



As correspondências entre os executivos da Universal Studios e United Artists, que rejeitaram o projeto do filme, destacavam a abundância de boas ideias, mas a preocupação com os gastos de materializar muitas cenas que envolviam efeitos especiais, e com a capacidade do jovem diretor de viabilizar de forma atraente o seu roteiro. Através da simpatia do executivo Alan Ladd, Jr. pelo projeto, a 20th Century Fox topou financia-lo, convencidos principalmente pelas espetaculares artes conceituais de Ralph McQuarrie para as ideias visuais de Lucas. Após o estrondoso sucesso do primeiro filme, Lucas convida seu professor da faculdade, Irvin Kershner, para dirigir “O Império Contra-Ataca” (1980), que teve um êxito comercial bem menor na época, talvez por aprofundar o aspecto dramático e por ser um filme de transição de uma trilogia, não tendo um desfecho definitivo.

Em 1983 é lançado “O Retorno de Jedi”, com direção de Richard Marquand, filme bastante semelhante à dinâmica do original, e com George Lucas mais próximo da produção e atento aos aspectos comerciais. Os três filmes tiveram sucesso comerciais e artísticos inquestionáveis, ainda que o último não continue o amadurecimento mostrado em “O Imperio Contra-Ataca”. O mais interessante é que, a revelia de seu criador, desde o hiato da decada de 1980 até os novos filmes do final de 1990, e a resolução de George Lucas de não mais atuar como diretor, cada fã de Star Wars cultivou uma relação diferente com o material criado por Lucas e seus colaboradores, num grau de independência sem comparação com qualquer outro produto cinematográfico, em algo que beira o religioso.



Durante a década de 1980, George Lucas produziu filmes tão diversos como “Willow”, de Ron Howard, “Powaqqatsi”, de Godfrey Reggio, “Tucker”, de Coppola (todos de 1988) até “Kagemusha” (1980), de seu ídolo Akira Kurosawa. Também investiu em tecnologia, como no sistema de som para salas de cinema THX e na continuidade da empresa que montou para os efeitos especiais de Star Wars, a Industrial Light & Magic (ILM), maior referência na área até na atualidade. No fim da década de 1990, se dispõe a escrever, produzir e dirigir mais uma trilogia de Star Wars, desta vez com os capítulos que precedem o filme de 1977.

Num projeto bastante pessoal, em que muitos dos colaboradores habituais tiveram reservas em participar formalmente, como o roteirista da trilogia original Lawrence Kasdan e seu diretor predileto e amigo Steven Spielberg, Lucas utilizou muitos elementos dos esboços originais, seguindo mais fielmente a trama de Fortaleza Escondida (1958), de Kurosawa, na história de dois cavaleiros jedi (incluindo um jovem Obi-Wan Kenobi) que protegem uma princesa durante a invasão de seu planeta. Num outro mote de “A Ameaça Fantasma”, ocorre o encontro com o menino escravo Anakin Skywalker, que será treinando, mesmo a contragosto do Conselho de Mestres, para ser um Jedi.



Desta forma Lucas tenta completar a ideia de que o conjunto de filmes trata da ascensão ao lado negro, queda e redenção de Anakin, que foi uma resolução que não existia na época do primeiro filme, mas surgiu durante a produção dos dois posteriores. Mais uma vez Lucas materializa seu universo íntimo de referências, desde o título, que remete aos episódios seriais de Buck Rogers, como The Phantom Plane (1939), até os elementos que remetem as inspirações originais de Kurosawa e John Ford: corridas automobilísticas (que quase foram sua profissão antes de se decidir pelo cinema), cenas de guerra e ação, todas calçadas em abundante (e para muitos exagerada) tecnologia; além de um personagem digital cômico, Jar Jar Binks, num registro bem próximo de um desenho animado, certamente endereçado ao público infantil, e baseado, segundo Lucas, nas mirabolantes coreografias corporais de Buster Keaton e Harold Lloyd na década de 1930.



Muitas ideias que não puderam ser materializadas nos primeiros filmes foram utilizadas na nova trilogia. A cidade de Had Abbadon, capital do Império no roteiro de “O Retorno de Jedi” (agora batizada de Coruscant), a rivalidade entre os Jedi e os Sith, o auxílio dos Wookies na batalha em Kashyyyk (que foi substituída pelo dos pequeninos Ewoks, na lua de Endor), assim como a batalha em meio à lava vulcânica, agora não mais de Vader e Luke, mas entre Anakin e Obi-Wan. “A Ameaça Fantasma” apresenta uma mistura de elementos um tanto desequilibrada, apesar de pontualmente ser muito interessante e criativo.

Mas a reação dos fãs, que fizeram do episódio a maior bilheteria de toda a saga, também pela dimensão da expectativa, foi extremamente negativa. George Lucas descobriu então (ou um pouco antes, nas polêmicas modificações que operou na trilogia original nas edições especiais, em 1997 que cada expectador tinha a sua visão de Star Wars, e poderia não aceitar mais passivamente seu papel como único autor, assim como sua obsessão por atualizar constantemente efeitos e alterar cenas. Assim como alguns conceitos mais afeitos da ficção científica, como explicar a agência da Força, antes um elemento puramente místico, por organelas semelhantes a mitocôndrias chamadas midi-chlorians, e causando furor entre os mais ortodoxos. Neste exemplo da reação dos fãs a modificação de um elemento consagrado da saga, nota-se como Star Wars é muito mais uma fábula espacial, onde seus elementos mágicos são bem aceitos e qualquer fórmula que tente racionaliza-los, como no gênero de ficção cientifica tradicional, é geralmente rejeitada. Esta relação de amor e ódio foi muito bem retratada no documentário “The People vs. George Lucas”, de 2010.



Para o segundo e terceiro episódios Lucas deu um tom mais sóbrio e adulto aos filmes, em reação a crítica de extrema infantilização do primeiro. Observando hoje, talvez os fãs mais fervorosos não estivessem preparados para uma trama e um visual que remete muito aos contos de fadas (assim como o episódio de 1977), mas que também tinha uma subtrama política um tanto pálida (provavelmente ninguem usaria orgulhosamente uma camiseta da Federação Comercial ou da Aliança Corporativa, como usaria do Império ou da Aliança Rebelde). O filme serve como uma boa introdução aos personagens e ao direcionamento que Lucas gostaria para os seis episódios em conjunto, mas não é satisfatório na direção de atores e das cenas dramáticas, o que o próprio diretor reconhece não ser seu forte.

O segundo episódio, “O Ataque dos Clones” (2002), mistura o romance entre Padmé e Anakin, a investigações de Obi-Wan no planeta Kamino, cenas de arena à moda de “Spartacus” (1960), – assim como no primeiro episódio as corrida de pods remetia as bigas de “Ben-Hur” (1959) – e o início das Guerras Clônicas, alguns vezes citada na trilogia original, mas agora materializada pelas possibilidades da tecnologia digital. Aliás, o episodio II foi o primeiro longa-metragem filmado completamente com lastro digital, já sem o uso da película.



No terceiro episódio Lucas mescla uma abertura movimentada, em que o paralelismo das naves gigantescas lembra as batalhas de navios dos filmes de piratas (algo já presente em “O Retorno de Jedi”, com direito até ao trampolim nas barcaças voadoras do “mafioso” Jabba, o Hutt), que se encerra com o resgate do senador Palpatine. A trama de sedução de Palpatine ao jovem e rebelde Anakin é o centro do drama. Todos os personagens são envolvidos por um estratagema que se revela no trecho final, com o extermínio dos Jedi, a passagem de Anakin para o lado negro e sua danação na batalha com seu mestre Obi-Wan (luta muito semelhante a do episódio IV, como muitas outras situações dos novos filmes). Desta forma, Lucas forja o ponto onde alguns de seus personagens míticos surgiram, com a transformação de Anakin em Darth Vader, o nscimento dos gêmeos Luke e Leia, e a formação do Império Galáctico, com a figura do Imperador como central e de Vader como seu lacaio.

A princípio, parece que os elementos que compõe os novos filmes tem a mesma origem das antigas composições, assim como o uso da tecnologia visual de ponta que caracterizou os filmes da primeira trilogia. Porém, a platéia que assistiu Star Wars na década de 1970 e 1980 se sentiu desconfortável diante do acabamento visual conseguido pelos recursos computadorizados. Preferiam assim o “universo de segunda mão” que caracterizava os antigos filmes, onde os Rebeldes têm suas instalações, naves e equipamentos bastante desgastados e velhos. Esse visual influenciou bastante o cinema de ficção científica posterior, deixando de lado a aparência de novo que estes filmes apresentavam, se tornando referência para diretores requintados como Ridley Scott em “Alien” (1979) e “Blade Runner” (1982).



A janela aberta por George Lucas para os acontecimentos anteriores ao episódio original parece ter se chocado com que os fãs projetavam como continuação de algo com que tinham uma ligação emocional muito forte, e a novidade trazida por estas produções despertou a ira e a intolerância de muitos fãs contra seu criador. Mesmo que parcialmente malogrados, os episódios em que Lucas pretendia reiniciar a série têm muitos elementos novos e arrojados, característicos de um cineasta independente que, mesmo multimilionário e consagrado, busca um caminho expressivo ainda não percorrido. Ainda continuam a tradição de ser um registro movimentado e divertido, no espírito das matinês, calçado num drama novelesco e com desenvolvimento que remete as mesmas inspirações originais, até mesmo nos títulos, dos filmes seriais e de gênero americanos.

Pensando em como George Lucas optou por restringir a utilização do material ao que era sua ideia inicial, ou bem próximo dela, reciclando e referenciando elementos para tentar não ferir o senso de unidade que por anos buscou para sua criação, é o caso de torcer para que a nova mandatária de Star Wars continue neste espírito (e parece que este é o caso) e preserve a magia desta fábula de uma galáxia distante pelos mesmos 40 anos, ou mais.





Sobre o autor:

Douglas König é cinéfilo, divulgador e mediador de mostras de cinema. Conhecedor e estudioso da sétima arte, seu gosto varia entre o melhor da obra de Antonioni até o pior de George Lucas.

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