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Crítica | Creed – Nascido para Lutar



Em certo momento de Creed – Nascido para Lutar, o jovem Adonis Creed assiste a uma luta do seu pai, Apollo, contra Rocky Balboa. Adonis se coloca à frente do projetor e começa a imitar os movimentos da luta. Essa imagem, com a projeção sobrepondo o protagonista, reflete boa parte da temática do filme, que mostra um lutador tentando se provar pelo que ele é e escapar da sombra do seu pai, que por mais que ele nunca o tenha conhecido, sua presença – assim como a de Rocky – ainda o envolve. E é essa relação paternal conturbada que move a narrativa deste novo e excelente trabalho do cineasta Ryan Coogler (Fruitvalle Station – A Última Parada).

Escrito pelo próprio diretor e por Aaron Covington, o roteiro acompanha o jovem órfão Adonis, que após ser enviado para diversos orfanatos, é adotado por Mary Anne Creed (Phylicia Rashad), viúva de Apollo. Apesar de o jovem ser o filho ilegítimo de seu marido, Mary Anne passa a cuidar da sua educação e o encaminha para um bom emprego, com a esperança de que ele não siga a mesma carreira do pai. Isso faz com que Adonis tenha que lutar escondido, no México, enquanto mantém um emprego “normal” durante o dia. Até que ele decide abandonar tudo e se mudar para a Filadélfia, para ser treinado pelo antigo amigo do seu pai, Rocky Balboa.



Apesar de Adonis também ter o seu nome tirado da mitologia grega, assim como o seu pai, a sua relação maior e mais familiar é com Rocky. O jovem é um lutador desconhecido e amargurado, que carrega os mesmos demônios que Rocky carregava, a mesma raiva contida. A grande diferença nesse caso é que, ao contrário do sempre gentil e inocente Balboa, o jovem Creed é arrogante, e sua presunção faz dele o seu pior adversário.

Aliás, a interação entre os dois é um dos pontos altos do longa, em especial pela excelente atuação de ambos. Enquanto Michael B. Jordan (Quarteto Fantástico) combina com perfeição essa arrogância com um temperamento explosivo e a supressão dos seus conflitos pessoais, Sylvester Stallone (Os Mercenários) entrega aqui uma das melhores atuações da sua carreira, construindo o seu personagem com uma delicadeza e sensibilidade ao mostrar o Rocky Balboa como alguém que já conquistou e perdeu tudo na vida, e agora caminha pelo limbo enquanto espera a sua hora – algo simbolizado pelo espaço vazio localizado ao lado do túmulo da esposa.



A Filadélfia continua tendo importância dentro da franquia, mas percebe-se a mudança que a cidade sofreu – como é o caso no Ginásio do Mickey, em que só a fachada se mantém a mesma. É por isso que o filme afasta geograficamente a sua trama para outro bairro, onde um novo estilo passa a imperar: sai a comunidade ítalo-americana e entra a comunidade negra. Com isso, tudo muda. A narrativa se transforma porque, assim como o seu protagonista, Creed – Nascido para Lutar quer provar o seu valor individual.

Esse valor surge com a direção segura de Ryan Coogler, que cria uma temática visual bastante significativa. Reparem como ele faz um corte brusco entre uma cena de luta no México, em que a câmera estava em constante movimento, para uma cena com câmera estática no escritório. Essa lógica já demonstra, desde início, o desconforto que Adonis sente com a sua vida e seu emprego “normal”. Em outro momento, durante a primeira luta profissional, o diretor opta por filmar tudo em plano-sequência, uma escolha angustiante que, por conta do seu realismo, parece distender o tempo do combate, não dando tempo para o personagem – e nem o público – respirar.



Também não posso deixar de mencionar uma cena envolvendo motos, que é de uma beleza emocionante e bastante significativa, simbolizando a transição entre as gerações, o estabelecimento de Adonis como um protagonista digno e o respeito e admiração pelo passado.

Contando com um excelente design de som que destaca o som de ossos quebrando e/ou estalando durante as lutas – conferindo ainda mais gravidade àquela situação –, Creed – Nascido para Lutar consegue honrar o legado Balboa ao mesmo tempo em que apresenta um novo e instigante herói. Esse é o início de uma nova jornada, e é uma jornada que estou muito curioso para acompanhar.





FICHA TÉCNICA
Título original: Creed
Gênero: Drama
País: EUA
Ano: 2015
Duração: 1303 min.
Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler e Aaron Covington
Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad, Tony Bellew, Andre Ward, Ritchie Coster, Graham Mc Tavish.



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