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Crítica | Os 8 Odiados



Os 8 Odiados é o filme que Quentin Tarantino quase não fez. Quando estava em vias de iniciar a pré-produção do seu segundo western, o roteiro recém-escrito vazou na internet, o que chateou profundamente o cineasta, levando-o a cancelar o projeto. É claro que esse cancelamento foi temporário, e logo o diretor voltou atrás e retomou a empreitada. O resultado é, assim como Django Livre, um western revisionista (à sua maneira), contando com um apuro estético impressionante e o humor característico do seu realizador.

A trama se passa no rigoroso inverno do estado americano de Wyoming e acompanha um grupo de pessoas preso num armazém durante uma nevasca, quando cada um deles estava se dirigindo (em viagens separadas) à cidade de Red Rock. O grupo de oito odiados é formado por um caçador de recompensas (Kurt Russell), um ex-major da união (Samuel L. Jackson) que também trabalha como caçador de recompensas, uma prisioneira sendo levada para enforcamento (Jennifer Jason Leigh), um ex-soldado confederado (Walton Goggins) que será nomeado xerife de Red Rock, um excêntrico carrasco (Tim Roth), um ex-general sulista (Bruce Dern), um misterioso cowboy (Michael Madsen) e um mexicano (Demián Bichir), gerente do estabelecimento. Não demora muito para que se aflorem os conflitos entre eles, e os segredos comecem a ser revelados.



Para melhor entender esses conflitos é preciso um pouco de conhecimento sobre a Guerra da Secessão Americana, que aconteceu entre 1861 e 1865, e foi um conflito entre União (formada pelos estados do Norte do país) e os confederados (Sul). Enquanto a União lutava pelo fim da escravidão, e tinha o apoio do presidente Lincoln para isso, os Confederados queriam manter as coisas como estavam, pois a abolição abalaria a situação financeira dos estados do sul, cuja economia era baseada na produção de algodão – colhido por escravos. Não fica claro o ano exato em que se passa a trama, mas é possível perceber que as feridas da guerra ainda estão frescas na memória dos protagonistas, e o diretor/roteirista usa esse argumento para provocar aquelas pessoas de uma maneira muito característica.

A estrutura do roteiro, dividida em capítulos, possibilita ao realizador ousar na sua concepção narrativa, não se prendendo a nenhuma regra da escrita. Existem cortes secos entre as ações, idas e vindas no tempo, apresentação de personagens já no terceiro ato, e até mesmo a introdução de um narrador na metade do filme. Tudo isso funciona perfeitamente para segurar a atenção do espectador durante todos os 187 minutos de projeção de uma história que se passa quase inteiro num único ambiente e é toda construída em cima de diálogos.



Aliás, de certa maneira, Os 8 Odiados dialoga com o primeiro longa de Tarantino, Cães de Aluguel (1992). Muito do conceito do seu trabalho inicial se repete aqui: um único ambiente, flashbacks, situações um tanto absurdas, além de... bom, falar mais seria spoiler. Mas tal comparação também denota uma evolução do cineasta, pelo menos no quesito visual. Enquanto no início da carreira Tarantino apresentava um estilo mais cru de filmar, aqui ele adere a diversos arroubos estéticos que vão de belíssimos planos gerais das montanhas geladas de Wyoming (cortesia da película em 70mm usada nas filmagens) até imagens de cavalos correndo em câmera lenta ao som da trilha sonora sempre incrível de Ennio Morricone (Era Uma Vez no Oeste).

O diálogo com a sua carreira também acontece de forma quase metalinguística. Em certo momento, alguém afirma que agora é ofensivo utilizar a palavra pejorativa “nigger” para se referir a pessoas negras, algo pelo qual Django Livre foi bastante criticado; em outro momento repete-se um plano visto no início de Bastardos Inglórios, em que a câmera se movimenta para o porão. Existem ainda monólogos pseudo-filosóficos, como aquele sobre o papel não emocional do carrasco, e até uma particularidade na atuação de Tim Roth, que parece imitar os trejeitos e excentricidades de Christoph Waltz – parceiro do diretor nos seus dois filmes anteriores.



Trabalhando novamente com personagens desprezíveis e abandonando qualquer resquício de maniqueísmo em uma realidade em que não existem heróis (e todos são vilões), Tarantino exerce extremo domínio do ambiente filmado. A coreografia das ações e o posicionamento das pessoas em cena são muito bem planejados. O uso exagerado da violência também volta a aparecer, com jorros de sangue, cabeças explodindo e muitos tiroteios. Trata-se de um cineasta experiente demonstrando domínio do ofício, ao mesmo tempo em que trabalha com temas já abordados desde a sua juventude.

Quentin Tarantino quase não fez Os 8 Odiados. Ainda bem que ele mudou de ideia.



FICHA TÉCNICA
Título original: The Hateful Eight
Gênero: Western
País: EUA
Ano: 2015
Duração: 187 min.
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Bruce Dern, Demian Bichir, Michael Madsen, Tim Roth, James Parks, Channing Tatum, Dana Gourrier, Zoë Bell.



Um comentário:

  1. Tarantino sempre nos mostra muito interessante e filmes chocantes também escolher um elenco totalmente profissional e muito capaz. Quando um ator consegue encarnar personagens com personalidades distintas, pode-se dizer que é um bom ator, e nos mostra Walton Goggins com seu novo personagem como Lee Russell na série Vice Principals, aqui apresentado como o vice-presidente de um secundário, lutando Neal Gamby ( interpretado por Danny McBride também Director da série) que também procura ocupar o lugar vazio do director da escola. Walton Goggins e nos aliena do personagem que ele tinha tomado na série como The Shield ou detetive no filme "Os 8 odiados" e nos leva a um onde os tons cômicos e dramáticos estão presentes.

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