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Crítica | Caçadores de Emoção - Além do Limite



Gosto muito do Caçadores de Emoção original. Acredito que seja um filme que funcione por conta de uma combinação da simplicidade da trama com a naturalidade com que a diretora Kathryn Bigelow (A Hora Mais Escura) conduz a sua narrativa, fazendo com que as cenas de ação memoráveis – como aquela em que Keanu Reeves pula de um avião sem paraquedas – surjam com aparente facilidade, sem que chamem a atenção para si mesmas. Sendo assim, é um pouco decepcionante que esse remake erre justamente naquilo que o anterior foi tão bem sucedido, tornando a trama desnecessariamente complexa ao mesmo tempo em que se esforça o tempo todo para criar momentos memoráveis.

Escrito por Kurt Wimmer (O Vingador do Futuro), o roteiro acompanha Johnny Utah (Luke Bracey), um ex-atleta radical com “mais coragem do que talento” que abandona a carreira após uma tragédia pessoal e se inscreve no programa de treinamento do FBI. Seu conhecimento específico permite que ele reconheça um padrão em uma série de roubos de alto risco que estão acontecendo ao redor do mundo. Segundo ele, além de roubarem diamantes e darem aos pobres e fazerem chover dinheiro, o grupo está tentando completar os “Oito Desafios de Ozaki”, uma lista de tarefas impossíveis capaz de fazer com que o atleta que a complete atinja o nirvana. Trabalhando disfarçado e prevendo onde vai acontecer o próximo desafio, Utah conhece e se infiltra no grupo liderado por Bodhi (Edgar Ramirez), ato que pode levá-lo à resolução do caso ou fazê-lo retornar às suas raízes de esportista radical.



Pela sinopse acima é possível perceber como o texto de Wimmer incrementou a lógica do original, que consistia apenas em roubos de bancos para poder financiar uma temporada de surfe. Aqui existe toda uma filosofia de salvar a Terra se unindo a ela, e abandonar a si mesmo para se tornar parte de algo maior. Para isso, o grupo de Bodhi segue uma lógica própria (e contraditória), que consiste em catar latinhas do chão e fazer fogueiras do jeito “natural”, ao mesmo tempo em que frequentam festas regadas a cervejas e outras bebidas de marca e parecem não se importar que suas aventuras sejam bancadas por alguém que provavelmente tira o seu dinheiro da extração de petróleo. Seguindo a mesma contrição dos seus personagens, o roteiro parece se esquecer – ou ao menos não se importar – com a ideia de retribuição ao planeta, que deveria suceder cada desafio. Dos oito desafios, só vemos três momentos de retribuição, sendo que desses três, só um é direcionado à natureza.

E já que os bandidos não precisam ficar roubando bancos, os tais desafios surgem para suprir a necessidade de cenas de ação. Ao menos estas funcionam muito bem, exatamente por conta dos seus exageros. Aliás, essa é uma das maiores qualidades de Caçadores de Emoção – Além do Limite e também um dos seus maiores defeitos. O diretor Ericson Core (O Invencível) em nenhum momento tenta realizar um filme realista. Suas manobras são absurdas e divertem por causa disso. E se o apuro estético do cineasta as vezes soa exagerado (como na sequência embaixo d’água), em outros momentos ele se encaixa perfeitamente com a sua proposta, como na cena em que os personagens fazem um voo livre de Wingsuit. Porém, a plasticidade exagerada da narrativa - que parece se importar mais com os cenários e efeitos especiais do que com a história - evita qualquer envolvimento com os personagens



Também não ajuda é o fato de o elenco não apresentar carisma algum. Enquanto Ramirez tem dificuldade em transpor toda a filosofia purificadora que seu personagem busca, Luke Bracey se mostra ainda mais inexpressivo do que Keanu Reeves (e olha que isso é difícil). Já Teresa Palmer é explorada visualmente como forma de aparecer apenas como o objeto de desejo dos homens que a cercam. Mais do que isso, sua personagem parece surgir apenas para disfarçar a atração (quase) homo afetiva entre Utah e Bodhi.

Trazendo algumas referências claras ao original, como momento em que o policial, em meio à sua frustração, descarrega sua arma para o alto, Além do Limite se prejudica exatamente por ser um remake de Caçadores de Emoção. Se não fosse, talvez o resultado seria melhor. Mas numa comparação que ainda leva em conta o peso da nostalgia, este novo trabalho sai perdendo feio.



FICHA TÉCNICA
Título original: Point Break
Gênero: Ação
País: EUA
Ano: 2015
Duração: 114 min.
Direção: Ericson Core
Roteiro: Kurt Wimmer
Elenco: Luke Bracey, Edgar Ramirez, Ray Winstone, Teresa Palmer, Matias Varela, Clemens Schick, Tobias Santelmann, Max Thieriot, Delroy Lindo.

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