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Crítica | O Quarto de Jack



O Quarto de Jack é um filme que mistura metáforas e histórias clássicas para narrar uma trama forte e contundente, sobre um tema bastante atual: o sequestro, abuso físico e estupro de mulheres mantidas em cativeiro por homens com quem são obrigadas a manter uma relação forçada. O caso de Ariel Castro, por exemplo, tomou conta da mídia em 2013 quando foi exposto que ele manteve três mulheres reféns por uma década, chegando a ter uma filha com uma delas – e tendo feito outras abortarem diversas vezes –, e gerou o telefilme Cleveland Abduction, cuja narrativa era focada em uma das vítimas. A grande diferença neste caso aqui, além de ser uma história de ficção, é o fato de a narrativa ser mostrada através dos olhos da criança nascida em cativeiro, que cresce acreditando que o mundo se resume ao pequeno quarto onde se encontra trancada.

Escrito por Emma Donoghue com base em seu próprio livro, o roteiro acompanha o jovem Jack, um simpático garotinho que vive com sua mãe em um pequeno quarto sem nenhum contato com o mundo de fora, a não ser por uma claraboia que permite a entrada de um pouco de luz. Jack e sua mãe passam o tempo todo juntos, a não ser aos domingos, quando a mãe recebe a visita de um estranho que lhes traz provisões para a semana. O que Jack não sabe é que sua mãe foi sequestrada pelo estranho visitante sete anos antes, e é constantemente estuprada por ele, ao mesmo tempo em que lhe é negada qualquer contato com o mundo exterior. Buscando sobreviver naquela realidade absurda, a mãe inventa histórias para o filho, visando tornar a convivência naquele espaço claustrofóbico um pouco mais tolerável. Até o dia em que ela elabora um plano que pode libertar os dois, e fazer com que Jack finalmente conheça o mundo real.



É possível fazer um paralelo muito claro com o mito da caverna de Platão, que fala sobre um grupo de prisioneiros que vivem acorrentados em uma caverna e passam o tempo todo olhando para uma parede onde são projetadas sombras de estátuas provenientes de uma fogueira. Não tendo nenhuma referência externa, aquelas pessoas acreditam que as imagens projetadas constituem o mundo real. Mas quando um deles se liberta, sai da caverna e depois volta para contar o que viu, os outros não acreditam na sua história, negando esse conhecimento, e mantendo a sua ignorância a respeito do mundo. Porém, o filme também faz um paralelo contrário, referenciando o livro Alice no País das Maravilhas, com a ideia de passar pela toca do coelho para adentrar um mundo de fantasias. Sendo assim, o mundo real em O Quarto de Jack é ao mesmo tempo um mundo inacreditável e fantástico. E isso, obviamente, se torna assustador para um garotinho de cinco anos que estava acostumado com a sua rotina em confinamento.

Para isso, o diretor Lenny Abrahamson (Frank) já estabelece desde o início a familiaridade que o garoto tem com a sua cela ao mostrá-lo cumprimentando cada um dos móveis, e fazendo com que o movimento de câmera dê a impressão de que o local é maior do que realmente é. Da mesma maneira, é interessante perceber como ele opta por esconder o rosto do sequestrador durante a sua primeira aparição, dando-lhe assim um ar quase sobrenatural, como uma presença soberana que impera naquele pequeno lugar – e essa imagem é estilhaçada quando ele é mostrado mais de perto e podemos perceber que ele é apenas uma pessoa “normal” (e isso é que é mais assustador). Porém, se as escolhas estéticas de Abrahamson merecem destaque, algumas de suas opções narrativas se mostram um tanto equivocadas, como o fato de ele se utilizar da narração em off apenas para repetir o que a imagem já estava mostrando, criando uma cacofonia visual desnecessária, ou mesmo pela perda de ritmo a partir da segunda metade do filme, que serve apenas para reforçar como a primeira metade, com suas limitações e metáforas, era muito mais interessante.



Apesar dos defeitos, é preciso destacar que se O Quarto de Jack funciona, ele funciona por causa da sua dupla de protagonistas. Brie Larson compõe a sua personagem com um misto de raiva, submissão e depressão, algo que ela carrega em seu olhar sempre cansado. É interessante perceber que a sua personagem se chama Joy (alegria em inglês) e que a composição de algumas cenas remete a esse seu lado alegre (como é caso do seu travesseiro florido ou as fotos da sua juventude) que se perdeu após o sequestro. Mas o grande destaque fica mesmo para o jovem Jacob Tremblay, que cria um personagem sensível e ingênuo, ao mesmo tempo em que se mostra doce e forte. Surgindo como um farol de sanidade para a personagem de Larson, é ele também que torna tolerável para o público assistir passivamente a uma situação tão absurda e tão real.

FICHA TÉCNICA
Título original: Room
Gênero: Drama
País: EUA/Irlanda/Canadá
Ano: 2015
Duração: 118 min.
Direção: Lenny Abrahamson
Roteiro: Emma Donoghue
Elenco: Brie Larson, Jacob Tremblay, Sean Bridgers, Wendy Crewson, Amanda Brugel, Joe Pingue, Joan Allen, Cas Anvar, William H. Macy, Tom McCamus.

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