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Crítica | O Regresso



O Regresso narra uma história real de sobrevivência e determinação, apresentando uma direção bastante segura, atuações comprometidas e um apuro estético excepcional. E por mais que muitos acusem o filme de utilizar-se desses argumentos para mascarar sua falta de conteúdo, assim como aconteceu com Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), pessoalmente consegui me envolver com esse novo trabalho do cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu, que não por acaso desponta como um dos principais candidatos ao Oscar... de novo.

Escrito pelo próprio diretor em parceria com Mark L. Smith (Temos Vagas), com base no livro de Michael Punke, o roteiro se passa no início do século 19 e acompanha um grupo de comerciantes de peles, cujo guia, o explorador Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), é atacado por uma ursa e fica gravemente ferido. Quando um membro da sua equipe (Tom Hardy), encarregado de cuidar dele, abandona Glass para morrer, o explorador junta todas as suas forças para se vingar da pessoa que o abandonou, iniciando uma travessia impossível por um território inexplorado e perigoso.



A jornada de Glass, porém, toma um rumo existencial à medida que o filme passa a discutir questões relacionadas à natureza humana. Dessa maneira, é possível perceber que não existem necessariamente heróis e vilões. Todos se encontram em uma área cinzenta em que o próprio conceito de certo e errado parece se dissipar. O personagem de Tom Hardy, por exemplo, não responde como um vilão, mas como um sobrevivente, alguém que considera o seu egoísmo uma característica necessária ao seu estilo de vida. Já o capitão vivido por Domhnall Gleeson tenta esconder a sua covardia atrás da sua posição de poder, utilizando-se disso para manter a sua consciência limpa.

O outro lado dessa história americana também é mostrado. Os índios não são vistos como uma massa uniforme de seres selvagens – como costumavam ser apresentados em muitos filmes americanos –, mas como seres complexos, que seguem as suas próprias regras de sobrevivência em meio àquele ambiente que agora eles precisam “compartilhar” com o homem branco e com outras tribos inimigas. E no meio desses dois mundos surge Glass, que como o próprio sobrenome sugere, transparece em si a realidade desses dois mundos: a selvageria do homem branco e a civilidade própria do indígena. Provando-se mais uma vez como um ator excepcional, Leonardo DiCaprio compõe o seu personagem de maneira dedicada e, sendo privado da fala durante boa parte da projeção, precisa recorrer apenas à sua expressividade para transmitir os sentimentos de Glass.



É interessante perceber também que seu personagem passa por um transformação quase literal durante a projeção. Essa transformação é visível através do uso da pele de urso, do fato de ele não conseguir se erguer sob duas pernas, da perda da fala, por comer comida crua e entrar em contato com a natureza. Isso se completa quando ele “renasce” das entranhas de um cavalo. Mas não é uma mutação completa, afinal Glass sempre refletiu dois mundos distintos. E se antes era o mundo do homem branco e do indígena, agora é o do ser humana e da natureza. Glass chega até a afirmar que “já morreu” uma vez, reforçando ainda mais a ideia do renascimento. (Atenção, o resto desse parágrafo contém um spoiler!) E ao finalmente reencontrar o seu inimigo, ele perde a espingarda e precisa lutar com lâminas – o equivalente humano das garras dos animais. Mas termina o embate entregando a sua vingança à floresta, como se sua transformação tivesse se completado.

Emulando a estética de diretores como Andrei Tarkovski (algo que tem gerado muita discussão e até acusações de plágio) e Terrence Malick, neste caso pela concepção de imagens idílicas, que remetem a um conceito fantasioso de passado, e narradas por meio de sussurros; Iñárritu não deixa de imprimir a sua própria marca, em especial ao criar sequências extremamente bem orquestradas, como o primeiro ataque do acampamento (que custou um mês de ensaios) ou o já famoso ataque do urso. Aliás, nesse momento, o realizador utiliza-se do mesmo recurso usado em Birdman, ao aplicar um plano-sequência para que, de forma paradoxal, uma cena sem cortes pareça ter o seu tempo distendido.



Filmado todo com luz ambiente pelo talentoso diretor de fotografia Emmanuel Lubezki (Gravidade), o longa apresenta um visual arrebatador, com imagens tão belas que merecem ser emolduradas. A impressão que fica ao ver o filme é que o sol se movia para iluminar os atores, e não o contrário. Um exemplo disso é quando Glass é mostrado no meio de um rio, num grandioso plano geral, e ele aparece no único espaço do rio iluminado pelo sol. É interessante notar também como a câmera tem um papel ativo na narrativa, como é o caso dos pingos que ficam grudados na tela ou o vapor da respiração, com o qual é feito uma bela fusão com nuvens e fumaça.

Pesado e violento, O Regresso não é apenas uma história de vingança, mas uma jornada pela ideia de humanidade, e as limitações que isso implica. Trata-se de um excelente filme, que merece ser visto no cinema.



FICHA TÉCNICA
Título original: The Revenant
Gênero: Drama
País: EUA
Ano: 2015
Duração: 146 min.
Direção: Alejandro González Iñárritu
Roteiro: Alejandro González Iñárritu e Mark L. Smith
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck, Paul Anderson, Kristoffer Joner, Duane Howard,  Melaw Nakehk’o.

Um comentário:

  1. se não fosse as paisagens, fictícias ou não, seria uma merda!!

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