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Crítica | Steve Jobs



Nos últimos anos foram lançadas duas cinebiografias sobre o criador da Apple. Enquanto a primeira, intitulada Jobs, seguia um padrão de telefilme, abordando diversos pontos chaves da vida do seu personagem sem se aprofundar em nenhum deles, esta nova, chamada Steve Jobs, apresenta-se cinematograficamente mais desafiadora e entrega um resultado muito melhor. Ainda assim, uma comparação qualitativa entre os dois títulos se mostra equivocada, uma vez que eles funcionam de maneira quase simbiótica, um completando as lacunas deixadas pelo outro. Porém, o grande diferencial deste novo trabalho é deslocar a função de protagonista de Jobs para o roteirista Aaron Sorkin, que desempenha aqui um papel até mais importante do que o ator Michael Fassbender.

Escrito com base no livro homônimo de Walter Isaacson, o roteiro narra três eventos importantes na vida de Jobs (Fassbender): o lançamento do primeiro Macintosh, em 1984, o lançamento do projeto fadado ao fracasso Next, em 1989, e o lançamento do iMac, em 1998. Cada um desses eventos dura cerca de 40 minutos, enquanto Jobs é mostrado discutindo com a ex-namorada (Katherine Waterston) e a filha pequena, a sua assessora (Kate Winslet), o ex-parceiro de criação Steve Wozniak (Seth Rogen), o executivo da Apple John Sculley (Jeff Daniels), entre tantos outros. Ao mesmo tempo, flashbacks detalham um pouco mais o passado do protagonista, revelando algumas informações necessários para sua melhor compreensão.



Apesar de se tornar um pouco repetitiva e depender demais de um conhecimento prévio da história, a estrutura cíclica do texto permite ao roteirista Aaron Sorkin destilar o seu veneno no formato diálogos rápidos e de grande eloquência. E não se engane, esta não é uma cinebiografia do criador da Apple. É um filme sobre o cara que escreveu o filme sobre o criador da Apple. Sorkin encontra em Jobs a figura brilhante e detestável que ele gosta tanto de retratar. O personagem aqui é visto como alguém que discute pelo prazer de discutir, inventando motivos para isso, quase como se estivesse à busca de um adversário verbal a altura dele próprio. E quando se cansa, ele finaliza o assunto, normalmente oferecendo dinheiro a alguém.

De certa maneira é como se o Steve Jobs aqui fosse uma versão mais velha do Mark Zuckerberg de A Rede Social. Ambos são arrogantes, inteligentes e têm dificuldade de se relacionarem com outras pessoas. A diferença é que enquanto Zuckerberg continha a sua megalomania, Jobs a expõe a todos e com orgulho. É comum vê-lo se comparando a figuras como Leonardo DaVinci, Bob Dylan e até (é claro) Deus. Porém, o que o torna interessante é notar pequenos gestos de “humildade”. Em uma discussão com Wozniak, por exemplo, ele se compara a um maestro de orquestra, ou seja, a alguém que necessariamente precisa do talento dos outros para ressaltar o seu próprio (pode não parecer muito, mas acredite, é).



Em meio à metralhadora de palavras saindo da boca de Sorkin, quero dizer, de Jobs, o realizador Danny Boyle faz o que pode para tentar inserir um estilo próprio ao filme. As projeções de foguetes na parede de um corredor, cortes secos de uma conversa para a plateia que aguarda o lançamento, ou os flashbacks extremamente rápidos vistos no terceiro ato não parecem surgir para ilustrar a forma como o protagonista enxerga o mundo, mas como uma competição saudável com o roteirista pelo controle criativo do longa.

Porém, nessa tentativa de mostrar serviço, Boyle opta por uma concepção estética que, pessoalmente, não agrada. Para diferenciar cada um dos eventos apresentados, o diretor utiliza formas distintas de captação da imagem, primeiro em 16mm, depois em 35mm e por último em digital. Tal escolha pode ser vista como referência à evolução da tecnologia com o passar do tempo. Mas a captação da imagem do cinema não funciona da mesma maneira que a evolução da tecnologia. A chegada de um novo formato não sobrepõe o anterior, como é o caso dos computadores. E mais, como defensor da película, confesso que fiquei incomodado ao ver 35mm (formato que muitos cineastas ainda consideram o melhor do cinema) ser associado a uma tecnologia obsoleta e fracassada. Divago.



Ao contrário do longa estrelado por Ashton Kutcher, que tinha todas as informações e nenhuma emoção, Sorkyn coloca a força motivadora do filme não na inovação ou na tecnologia, mas na relação paternal. Tal relação está sempre presente na trajetória de Jobs, por mais que ele a negue. O fato de ter sido adotado, a amizade com Sculley e o constante conflito com a sua filha, todos são fatores que contribuem a formação do seu caráter. E somente quando essas relações são expostas e resolvidas é que ele está livre para poder mudar o mundo como tanto queria. E Aaron Sorkyn pode, com isso, entregar outro excelente trabalho.


FICHA TÉCNICA
Título original: Steve Jobs
Gênero: Drama
País: EUA
Ano: 2015
Duração: 122 min.
Direção: Danny Boyle
Roteiro: Aaron Sorkin
Elenco: Michael Fassbender, Kate Winslet, Seth Rogen, Jeff Daniels, Michael Stuhlbarg, Katherine Waterston, Makenzie Moss, Ripley Sobo, Perla Haney-Jardine, Sarah Snook, John Ortiz, Adam Shapiro.



3 comentários:

  1. Daniel Parabéns pela crítica desde drama que já esta quase virando novelinha. Más acredito que é válido para a história. Tomei a liberdade e estou divulgando sua crítica em meu blog.
    http://www.alessandroturci.com.br/2016/02/steve-jobs-critica.html

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    Respostas
    1. Olá Alessandro.
      Agradeço a divulgação e fico feliz que tenha gostado do texto.
      Espero que continue acessando o 7Marte.
      Abraços
      Daniel Medeiros

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    2. Visito todos os dias a muito tempo e continuarei um forte abraço.

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