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Crítica | Quando as Luzes se Apagam


“A escuridão tem vida própria. No escuro, tudo ganha vida!”, diz um personagem do clássico Assim Estava Escrito (The Bad and the Beautiful, 1952), quando questionado sobre a melhor abordagem para realizar um filme de terror. De fato, é uma solução viável, pois permite que o espectador projete na escuridão os seus próprios medos e angústias. Dirigido pelo estreante David F. Sandberg, o terror recente Quando as Luzes se Apagam tenta fazer exatamente isso: usar a escuridão como corporificação de um medo.

Escrito por Eric Heisserer (A Hora do Pesadelo) com base no excelente curta-metragem Lights Out (veja aqui), o roteiro acompanha Rebecca (Teresa Palmer), uma jovem atormentada por um trauma do passado que optou por se isolar da família como forma de se proteger. Mas quando seu irmão mais novo (Gabriel Bateman) passa a apresentar problemas na escola e em casa, problemas esses agravados pela recente morte do pai e a depressão clínica da mãe (Maria Bello), ela se vê obrigada a reviver o maior medo da infância: uma estranha mulher que assombra a sua família há anos, e só aparece quando as luzes se apagam.


A dificuldade em adaptar um curta tão “simples” como Lights Out (uso aqui a expressão simples num sentido nada pejorativo) reside justamente em estender algo que funcionou tão bem em um formato menor. E Heisserer demonstra bastante dificuldade nisso. Conflitando com a narrativa visual de Sandberg (que também dirigiu o curta), o roteirista aposta em diálogos expositivos e em flashbacks mal utilizados. Assim, toda a relação da mãe com a tal figura ameaçadora fica relegada a algumas falas, enquanto outras situações importantes sequer são explicadas – talvez algumas questões sejam melhor detalhadas na continuação, assim como a história do pai desaparecido, mas isso não muda o fato de que aqui ficou faltando informação.

Ainda assim, a grande qualidade do texto (e do filme) reside na protagonista. Mostrando-se uma mulher forte e independente, Rebecca enxerga a fragilidade como um defeito que precisa ser combatido, o que a impede de se aproximar das pessoas que gosta, como o namorado Bret (Alexander DiPersia). É incrível perceber como, em certo momento, ela chega a fingir afeição apenas para conseguir o que quer. Da mesma maneira, é significativo que por mais que se negue a acreditar nos seus traumas de infância – que ela jura terem sido fruto da sua imaginação –, ela tenha escolhido morar num apartamento banhado por um sinal luminoso.


Outra característica marcante do roteiro é o fato de que os personagens nunca questionam as coisas que acabaram de presenciar. Em vez disso, eles logo se adaptam a essa nova realidade, por mais absurda que ela seja, mantendo sempre a racionalidade nas suas decisões. Portanto, se alguém grita “fique na luz!”, o outro imediatamente obedece, mesmo sem saber o motivo. Aliás, vale destacar também a direção de fotografia de Marc Spicer (Velozes & Furiosos 7), que trabalha com uma iluminação bem marcada, evidenciando a linha divisória entre luz e escuridão. Além de visualmente interessante, isso auxilia na construção de tensão, já vez todo ponto de escuridão representa uma ameaça em potencial.

Mantendo-se numa zona de conforto na sua estreia em longas-metragens, David F. Sandberg se limita a fazer o básico, criando sustos bons, mas previsíveis. Ao contrário da grande maioria dos seus curtas, nos quais ele parecia demonstrar mais segurança em conceber uma lógica totalmente visual, aqui ele recorre muito aos recursos sonoros exagerados – algo que até funciona, mas fica aquém da sua produção anterior. Ao final, Quando as Luzes se Apagam é bem sucedido dentro dos seus problemas, mas ainda é muito inferior ao curta que lhe deu origem.


Título original: Lights Out
Ano: 2016
Duração: 81 min.
Gênero: Terror
Direção: David F. Sandberg
Roteiro: Eric Heisserer
Elenco: Teresa Palmer, Gabriel Bateman, Maria Bello, Billy Burke, Alexander DiPersia, Alicia Vela-Bailey, Andi Osho, Lotta Losten.

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