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A realeza irreverente de Carrie Fisher


Terça-feira (27/12), logo após saber da noticia da morte de Carrie Fisher, fui ao supermercado com minha esposa e filha. Vesti minha camiseta de Star Wars mais antiga e desgastada, de um tempo em que não imaginávamos voltar a assistir novas histórias de uma galáxia muito, muito distante no cinema. Em meio aos corredores de produtos, num estado de alheamento por conta do choque do acontecimento, uma voz não familiar me traz de volta a realidade:

- Tu estava na sessão de Rogue One na quinta-feira, né?

Eu respondi prontamente que sim. O questionamento vinha de um funcionário que fazia a reposição das bebidas, e que até aquele momento era um total estranho. Então emendou:

- É bem melhor que O Despertar da Força, não acha?

Também concordei, ainda sem conseguir articular bem os argumentos. Ao que arrematou:

- Agora sim as coisas estão se fechando.

Imaginei que por estar no meio do expediente, não sabia da morte da atriz que interpretava a princesa Leia. Também não adiantei a informação, que de qualquer maneira iria ficar sabendo. Após alguns minutos, ainda voltou a me chamar para saber da camiseta, onde a comprei. Dei as dicas de onde encontra-la e voltei às compras, mas agora com uma sensação de que existia algo além do desconforto que eu estava sentindo, de algo chegando ao fim. Para muitos, principalmente os mais jovens, aqueles elementos de alguma forma estavam vivos e fortes, e motivam a seguir se interessando por esta fábula que teve início em meados dos anos 1970.


Conto essa passagem para ilustrar o peso de um ícone, de uma camiseta com um logotipo que se torna uma ponte para comunicação de dois desconhecidos, mas que a partir desse contato já compartilham algo em comum, e para os dois, valioso. Carrie Fisher carregou a vida inteira o peso de ter se tornado um ícone. Logo no inicio da carreira, vinda de uma família de celebridades artísticas, se envolveu em um estranho projeto de um norte-americano tímido e introvertido, mas com uma imaginação e conhecimento dos gêneros cinematográficos extraordinários, que se chamava George Lucas. Ninguém imaginava que aquela ópera espacial que misturava Flash Gordon com Akira Kurosawa, com trilha sonora orquestrada aos moldes clássicos e um trio de desconhecidos como protagonistas, iria fazer sucesso; menos ainda que seus personagens seriam tão duradouros num mundo em constantes mudanças sociais e culturais.

A princesa corajosa, independente e sarcástica era uma novidade para uma época de predominância dos homens em todos os meios importantes da sociedade, e o do cinema não era exceção. Essa personagem, líder dos rebeldes que combatiam um maligno império do mal (e as conotações políticas dos filmes eram bastante explícitas, numa época de guerras patrocinadas pela expansão de ideologias, como o capitalismo no Vietnã, por exemplo) carregava os valores de subversão e emancipação que a geração de jovens dos anos 1970 vivenciava. Por mais que a ação se passasse em outra galáxia, a dinâmica em que se inseria a figura feminina forte representada por Fisher marcou o espírito da época.

Ainda vinculada à produção dos filmes seguintes, sua personagem amadurecia no segundo episódio, em meio a conflitos, perdas e paixões. No terceiro filme, já nos anos 1980 (década em que muito da aura dos anos 70 se perdeu, substituída por estratégias comerciais), a exploração do apelo sexual de sua personagem no famoso figurino de escrava no palácio de Jabba,o Hutt, rendeu polêmica e sua objeção durante todo o restante da carreira. O traje que emulava as princesas marcianas da obra de Edgar Rice Burroughs parecia um retrocesso na posição que sua personagem adquiria anteriormente, ficando agora na submissão do herói masculino que a salvaria. Todas essas nuances foram analisadas criticamente pela atriz em declarações e entrevistas, e ficou claro que nunca acataria um estrelato artificial, guiada somente pelo desejo de agradar o público e fazer render dividendos por sua fama.


Essa personalidade não tornou fácil sua vida em meio às demandas do ambiente artístico, e seu envolvimento com drogas e distúrbios psiquiátricos (a bipolaridade) foram tratados abertamente, muitas vezes de forma chocante para um público acostumado ao verniz que reveste os seres que costumam ver em belos filmes e fotografias. Carrie Fisher era muitas vezes mais real do que a atenção do público conseguia suportar. E sendo um ícone de um expoente do escapismo fantasioso do cinema, essa relação era ainda mais complexa. Ela ainda desempenhou papeis formidáveis em outros filmes, assim como se destacou como escritora, roteirista e consultora.

Também levou seu senso de humor e inteligência, além do onipresente cachorro, a muitas plateias, em peças de teatro e eventos relacionados à série Star Wars. Além de, obviamente, ter retornado ao papel de princesa Leia recentemente, num processo que gerou, segundo seu relato, grande desgaste emocional e mesmo físico, para se adequar ao que exigia o papel. A principal queixa foi sobre a aparência esbelta exigida na produção, de uma senhora de quase 60 anos, e que vinha brigando contra isso desde que o maiô de escrava lhe conferiu o titulo de símbolo sexual, que se tornaria inviável (e indesejável) manter durante toda a eternidade que a constituição de um ícone exige.

O forte vínculo com o filme espacial de 1977 desviou sua carreira de uma maneira que dificulta imaginar como seria sem este evento. O mesmo ocorreu com Mark Hamill. Enquanto durarem os registros (e eles são cada vez mais permanentes e veiculáveis) dessa aventura que ultrapassou a tela do cinema e se integrou a cultura de praticamente todo o mundo, e apesar de seus múltiplos talentos e influência como personalidade fora das telas, irá ser como a princesa Leia Organa, líder rebelde em uma galáxia distante, mas numa luta muito familiar pela Liberdade, que sua lembrança será eterna.

Um breve excerto familiar, ao que me referi no início do texto. Quando chamam minha filha recém-nascida de princesa, me causa certo desconforto, porque sei o tipo de figura a que remetem em tal comentário. Como pai, gostaria que ela fosse um híbrido de elegância e força, delicadeza e coragem, realismo e esperança. Como uma personagem de princesa que acompanho e admiro a vida inteira, e hoje perde a sua iluminada protagonista.



Sobre o autor:

Douglas König é cinéfilo, divulgador e mediador de mostras de cinema. Conhecedor e estudioso da sétima arte, seu gosto varia entre o melhor da obra de Antonioni até o pior de George Lucas. Leia também o especial que ele escreveu sobre a saga Star Wars.

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