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Crítica | Rei Arthur: A Lenda da Espada

Épico de fantasia é uma mistura de estilos que não dá certo. 

Charlie Humman King Arthur
Imagem de divulgação: Warner
Coincidentemente, na noite anterior à minha sessão de Rei Arthur: A Lenda da Espada, novo filme do cineasta Guy Ritchie (O Agente da U.N.C.L.E.), revi um episódio da série de comédia Parks and Recreation no qual a equipe liderada por Leslie Knope tem a tarefa de sugerir o conceito para um novo mural do corredor da prefeitura. Na série, cada membro trouxe as suas sugestões absurdas e como se isso não fosse suficiente, eles tiveram a ideia de juntar tudo em um único mosaico ridículo. Quando apresentaram a obra para uma apática seleção julgadora, os funcionários do setor de parques e recreação não conseguem conter os risos diante da bizarrice que produziram. A grande lição que eles tiram disso tudo é que por mais que a obra não tenha ficado boa, ao menos eles se divertiram fazendo-a. E a razão pela qual digo que foi uma coincidência ter visto este episódio é porque foi essa a impressão que tive ao assistir a esse longa. Ritchie deve ter se divertido bastante juntando todas as referências de seus trabalhos prévios. Porém, a minha reação ao assistir aquilo foi a mesma daquela comissão julgadora: olhei para o resultado sem saber como dar algum sentido ao que estava vendo.

Escrita pelo próprio diretor em parceria com Joby Harold (Awake: A Vida por um Fio) e Lionel Wigram (O Agente da U.N.C.L.E.), a narrativa tem início com o reino de Uther (Eric Bana, de O Grande Herói) sendo atacado por um poderoso mago montado em um elefante gigante (isso mesmo). O bravo rei mata seu inimigo, mas não sabe que a grande ameaça ao seu reino vem do seu próprio irmão, Vortigern (Jude Law, de Sherlock Holmes), que tem um plano para tomar o seu lugar no trono. Vortigern acaba matando Uther, que que em seu último suspiro fala ao seu filho pequeno, Arthur, para fugir de barco. Longe dali, o menino é encontrado por um grupo de prostitutas. Ele cresce apanhando nas ruas, até que começa a treinar para poder revidar. Também aprende a roubar se sustentar. Já adulto, e interpretado por Charlie Humman (Z: A Cidade Perdida), ele se tornou um gangster local, controlando o contrabando, gerenciando o bordel onde foi criado, e coletando as dívidas daqueles que se arriscam a não pagar. Essa, porém, foi só a introdução. A trama, na verdade, envolve a reaparição da espada Excalibur presa a uma pedra e a lenda do retorno do rei. E se você notou esse trocadilho, saiba que ele é proposital.

Imagem de divulgação: Warner
Segundo o IMDB, o projeto foi vendido para o estúdio Warner Bros como uma mistura de O Senhor dos Aneis e Snatch: Porcos e Diamantes. O problema é que Ritchie distorce demais essa ideia para transformá-la em algo seu – o que funcionou bem no primeiro Sherlock Holmes, mas não aqui. Assim, a balança pende mais para o lado da aventura moderna do que para a fantasia, e com isso, fica um estranhamento ao vermos o ritmo frenético e os diálogos contemporâneos associados a um filme “de época” (por mais que este longa seja uma obra de ficção, a história do Rei Arthur se passa no século V). E não ajuda o fato de os personagens serem mal construídos. O próprio Arthur de Humman tem pouco espaço para desenvolver qualquer faceta que não seja aquela já desgastada do sujeito falastrão, bruto, mas de bom coração. O vilão de Jude Law, por outro lado, soa exagerado e caricato, mas não de uma maneira proposital e positiva. E se a maga vivida por Astrid Bergès-Frisbey (O Universo no Olhar) se limita a ter seus olhos pintados de preto na pós produção, como um indicativo dos seus poderes, ao menos ela tem alguma relevância para a trama, ao contrário dos coadjuvantes interpretados por Aidan Gillen (série Game of Thrones) e Djimon Hounsou (Diamante de Sangue), que surgem como meros espectadores de tudo que acontece à sua volta.

Além de não saber o que fazer com os seus personagens e não conseguir manter a integridade da sua narrativa, Ritchie também parece duvidar da nossa inteligência. É o caso, por exemplo, da montagem que insiste em mostrar a mesma ação três vezes – como a morte de Uther – ou em atrasar revelações que o público já entendeu. O problema é que isso explicita o quão vazio é aquele conteúdo, que chega ao ponto de precisar ser preenchido com repetições. Outros quesitos técnicos, porém, são dignos de nota: os efeitos especiais são bons, as cenas de ação são bem realizadas, a direção de arte é caprichada e a fotografia, em tons azulados, é bonita. O problema é que tais elementos funcionam muito bem quando analisados separados. Mas no mosaico unido pelo diretor, eles perdem toda e qualquer qualidade que poderiam ter. Sendo assim, eu espero, sinceramente, que Guy Ritchie tenha se divertido fazendo Rei Arthur: A Lenda da Espada. Porque, igual àquela comissão julgadora do episódio de Parks and Recreation, eu não achei graça nenhuma naquilo que vi.

Imagem de divulgação: Warner

FICHA TÉCNICA:
Título original: King Arthur: Legend of the Sword
País: EUA
Gênero: Aventura/Fantasia
Ano: 2017
Direção: Guy Ritchie
Roteiro: Joby Harold, Guy Ritchie e Lionel Wigram
Elenco: Charlie Hunnam, Astrid Bergès-Frisbey, Jude Law, Djimon Hounsou, Eric Bana, Aidan Gillen, Freddie Fox, Annabelle Wallis.


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