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Mostra SP | A Hollywood de Hitler

Documentário alemão explora o poder do cinema e a maneira como este pode ser usado para o mal. 


“Assistir a filmes antigos significa tocar o seu passado”. A frase do teórico Siegfried Kracauer que abre o documentário alemão A Hollywood de Hitler (Hitler's Hollywood, 2017) serve para lembrar um fator extremamente importante a respeito do cinema: a relação política que os filmes têm com a época da sua produção. Dirigido por Rüdiger Suchsland (From Caligari to Hitler), o longa mostra como o regime nazista usou o cinema como ferramenta de manipulação das massas, com produções que reforçavam e idolatravam a nação, o soldado e o sacrifício, além de justificarem o genocídio e incitarem o ódio contra os judeus.

Lembro-me que durante a faculdade de cinema estudamos um pouco da produção nazista alemã. Porém, o recorte feito na época reduziu-se a apenas as obras de Leni Riefenstahl, especialmente O Triunfo da Vontade (Triumph des Willens, 1935), uma verdadeira super-produção que coloca Hitler no patamar de um Messias. Riefenstahl também é citada aqui, com destaque tanto para O Triunfo da Vontade quanto para Olympia (1938), que ela filmou durante os Jogos Olímpicos de 1936 e que foi responsável pelo estabelecimento do culto ao corpo perfeito naquela época.

Porém, Leni Riefenstahl fazia documentários. E o recorte de Rüdiger Suchsland é muito mais amplo, incluindo – ou melhor, priorizando –, as produções de ficção. Desta forma, os longas mencionados antes traziam mensagem explicitas de idolatria, centenas de outras produções propagavam o mesmo tipo de mensagem, porém de maneira implícita. E o motivo para isso é simples: todos os filmes alemães produzidos durante o regime eram controlados por Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda na Alemanha Nazista. Desta forma, existe certa semelhança entre todas as produções desta época, que o documentarista define como “monumentais”.

Resultado de uma extensa pesquisa e contando com citações de alguns teóricos, como o já mencionado Kracauer e Susan Sontag, o documentário é composto por imagens de uma enorme variedade de longas-metragens dos mais diferentes gêneros, como comédias, melodramas, musicais e thrillers. Mas, não por acaso, o regime não permitia a realização de obras de terror, pois o terror reflete os medos da sua época, e não era do interesse do Reich passar a ideia de que havia motivos para sentir medo. Em vez disso, o cinema celebrava aqueles que iam lutar e mantinham entretidas aquelas que ficavam em casa, esperando o retorno dos maridos.

Os discursos de ódio também estavam presentes nesses longas. Um dos casos mais extremos é o do filme Jud Süß (1940), dirigido por Veit Harlan, que distorcia totalmente a figura do judeu, passando uma mensagem clara acerca da necessidade de uma atitude drástica – leia-se: extermínio. Exibida para as tropas alemãs, a obra teve um papel quase preparatório para o que viria a acontecer. Um dos motivos de que o extremismo do nazismo teve tanta aceitação é porque esse tipo de temática era comum ao seu cinema. Hitler entendia o poder dessa arte, o poder de mobilizar o povo, de passar uma mensagem, e usava-o a seu favor. Engana-se quem pensa que o cinema serve apenas como entretenimento descartável.

*Esse texto faz parte da cobertura do 7 Marte da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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