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Crítica | O Homem Mais Procurado

Em certo momento da projeção de O Homem Mais Procurado, adaptação do romance de John le Carré (O Espião que Sabia Demais), o personagem Günther Bachmann (Philip Seymour Hoffman) apresenta uma colega de trabalho dizendo: “Esta é Irna, ela veleja e é espiã. Eu não velejo”. Carregada de simbolismo, essa declaração define bem a personalidade de Bachmann, expressando ao mesmo tempo a dedicação e o cansaço que ele tem com a sua profissão, fatores esses que se refletem na postura recurvada e na voz rouca desse incrível ator.

Escrito por Andrew Bovell (O Fim da Escuridão), o roteiro acompanha o espião Bachmann, encarregado de uma equipe alocada em Hamburgo, na Alemanha. Quando seu time recebe a notícia de que um homem estava agindo de maneira estranha numa estação da cidade, eles passam a investigar o suspeito, que pode ou não ter ligações com o terrorismo. Antes de tomarem qualquer atitude, porém, eles precisam da aprovação de um conselho formado, entre outros, pela agente da CIA Martha Sullivan (Robin Wright). Paralelo a isso, o misterioso homem (Grigoriy Dobrygin) busca o auxílio de uma advogada (Rachel McAdams) e um banqueiro (Willem Dafoe) para resolver algumas questões pessoais e financeiras pendentes.



Apesar de tratar de uma narrativa calcada na paranoia pós-11 de setembro, o filme e o livro de le Carré fazem questão de criar personagens multifacetados, mostrando uma realidade em que não existem vilões e muito menos mocinhos. Não só isso, mas a abordagem realista do longa ainda mostra que nem toda a investigação leva ao fim de uma célula terrorista ou mesmo a uma prisão. Em muitos casos, a investigação culmina na assinatura de um simples documento, fato que é tratado aqui com a mesma tensão de uma bomba prestes a explodir – o que não deixa de ser verdade.

O diretor Anton Corbijn (Control) é elegante na sua composição de quadro, dando atenção a alguns detalhes importantes (como um olhar após um beijo), sem apelar para cenas de ação desnecessárias (a única sequência mais movimentada é uma perseguição a pé, mostrada de maneira bastante comedida) e criando rimas visuais interessantes: reparem, por exemplo, como os locais que Sullivan e Bachmann se encontram em dois momentos distintos ilustram não só as suas personalidades como também as suas posições profissionais (um café chique no alto de um prédio e um boteco escuro, provavelmente localizado no subsolo).



Vale destacar também o ótimo trabalho de direção de arte de Sabine Engelberg (A Viagem), que utiliza uma mansão de vidro para enfatizar a frieza do casamento do personagem de Dafoe, e a direção de fotografia de Benoît Delhomme (Os Infratores), que se utiliza de cores chapadas como forma de tirar toda a vida daquele universo.

Mas o grande mérito por traz do resultado positivo de O Homem Mais Procurado é mesmo de Philip Seymour Hoffman. Entregando aqui mais um desempenho memorável, o ator concebe um protagonista instigante, que parece literalmente carregar todo o peso das suas responsabilidades nas costas, sempre com a mesma expressão pacífica, tornando assim os seus (poucos) acessos de raiva ainda mais assustadores. É interessante perceber também que por mais que as suas expressões manifestem certo descontentamento em relação à profissão, isso nunca é refletido nas suas atitudes, o que demonstra um admirável profissionalismo, capaz de suportar todas as (muitas) ingratidões da sua função.



Este foi o último filme que Hoffman deixou completamente finalizado antes da sua prematura morte. E além de um excelente trabalho, é também uma despedida condizente com a carreira de um dos melhores atores dos últimos tempos.

(A Most Wanted Man | Thriller | EUA/Alemanha/Reino Unido | 2014 | 122min.)
Direção: Anton Corbjin
Roteiro: Andrew Bovell
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Rachel McAdams, Robin Wright, Grigoriy Dobrygin, Daniel Bruhl e Willem Dafoe.


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